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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

CorporaçõesII


"Quatro anos depois, aos vinte e dois, Grau apresentou-se ao exame público que se realizava na presença de quatro Cônsules da confraria. Realizou as suas primeiras obras: um jarro, dois pratos e uma escudela, sob o olhar atento daqueles homens, que lhe outorgaram a categoria de mestre, o que lhe permitia abrir a sua própria oficina em Barcelona e, claro, usar o selo distintivo dos mestres, que devia ser estampado, prevenindo possíveis reclamações, em todas as peças de cerâmica que saíssem da sua oficina. Grau, em honra do seu apelido, escolheu o desenho de uma montanha.
Grau e Giamona, que estava grávida, instalaram-se numa pequena casa de uma só piso no bairro dos oleiros, que por disposição real estava no extremo ocidental de Barcelona, nas terras situadas entre a muralha construída pelo rei Jaime I e o antigo bastião fortificado da cidade. Para adquirirem a casa, recorreram ao dote de Giamona (…)".

Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, p.46

Aconselhamos a leitura do livro de Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar. A história decorre no sec. XIV em Barcelona, no período em que esta cidade sofre de grande prosperidade. É o período em que no bairro dos pescadores os habitantes decidem construir, com o seu dinheiro e esforço, uma grande catedral em honra de “Santa Maria de la Mar”. Paralelamente à sua construção desenrolam-se as atribulações de Arnau, um servo da gleba que foge aos abusos do seu senhor feudal se refugia em Barcelona, como homem livre. Este é um maravilhoso relato do período medieval com todas as suas glórias e misérias, atravessado por várias histórias de amor. Este livro está disponível na Biblioteca escolar.

As Corporações I


A confraria, que era de origem religiosa e existia mais ou menos por toda parte, era um centro de ajuda mútua.Figuravam em primeiro plano as pensões concedidas aos mestres idosos ou já enfermos e os socorros aos doentes, durante todo o tempo da doença e da convalescença.Era um sistema de seguros em que cada caso podia ser conhecido e examinado em particular, o que permitia dar o remédio apropriado a cada situação e ainda evitar os abusos.Se o filho de um mestre é pobre e quer aprender, os homens de bem devem ensinar - lhe por 5 soldos (taxa corporativa) e por suas esmolas — diz o estatuto dos fabricantes de escudos.A corporação ajudava ainda no caso de seus membros precisarem de viajar ou por ocasião do desemprego.Thomas Deloney conta-nos este episódio interessante: Tom Dsum, sapateiro inglês em viagem, encontra-se com um jovem senhor arruinado, e dispõe-se a acompanhá-lo a Londres:— Sou eu quem paga. Na próxima cidade vamos divertir - nos bastante.— Como?! Pensava que você não tivesse mais que um soldo no bolso.— Se você fosse sapateiro como eu, poderia viajar de um lado para outro da Inglaterra apenas com um penny (= tostão) no bolso. Em cada cidade acharia boa comida, boa cama e boa bebida, sem mesmo gastar seu penny. Isto porque nenhum sapateiro deixará faltar alguma coisa a um dos seus. Pelo nosso regulamento, se algum companheiro chegar a uma cidade sem dinheiro e sem pão, basta ele se dar a conhecer, não precisa de se ocupar com outra coisa. Os outros companheiros da cidade não somente o receberão bem, como lhe fornecerão gratuitamente víveres e acomodações. Se quiser trabalhar a sua corporação se encarregará de lhe arranjar um patrão, e ele não terá de o procurar.Esta curta passagem não necessita comentários. Assim compreendidas, as corporações eram um centro muito vivo de ajuda mútua, honrando o seu lema: “Todos por um, um por todos”.

Régine Pernoud, Lumière du Moyen Âge, Éd. Bernard Grasset, Paris, 1944