quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

As Corporações I


A confraria, que era de origem religiosa e existia mais ou menos por toda parte, era um centro de ajuda mútua.Figuravam em primeiro plano as pensões concedidas aos mestres idosos ou já enfermos e os socorros aos doentes, durante todo o tempo da doença e da convalescença.Era um sistema de seguros em que cada caso podia ser conhecido e examinado em particular, o que permitia dar o remédio apropriado a cada situação e ainda evitar os abusos.Se o filho de um mestre é pobre e quer aprender, os homens de bem devem ensinar - lhe por 5 soldos (taxa corporativa) e por suas esmolas — diz o estatuto dos fabricantes de escudos.A corporação ajudava ainda no caso de seus membros precisarem de viajar ou por ocasião do desemprego.Thomas Deloney conta-nos este episódio interessante: Tom Dsum, sapateiro inglês em viagem, encontra-se com um jovem senhor arruinado, e dispõe-se a acompanhá-lo a Londres:— Sou eu quem paga. Na próxima cidade vamos divertir - nos bastante.— Como?! Pensava que você não tivesse mais que um soldo no bolso.— Se você fosse sapateiro como eu, poderia viajar de um lado para outro da Inglaterra apenas com um penny (= tostão) no bolso. Em cada cidade acharia boa comida, boa cama e boa bebida, sem mesmo gastar seu penny. Isto porque nenhum sapateiro deixará faltar alguma coisa a um dos seus. Pelo nosso regulamento, se algum companheiro chegar a uma cidade sem dinheiro e sem pão, basta ele se dar a conhecer, não precisa de se ocupar com outra coisa. Os outros companheiros da cidade não somente o receberão bem, como lhe fornecerão gratuitamente víveres e acomodações. Se quiser trabalhar a sua corporação se encarregará de lhe arranjar um patrão, e ele não terá de o procurar.Esta curta passagem não necessita comentários. Assim compreendidas, as corporações eram um centro muito vivo de ajuda mútua, honrando o seu lema: “Todos por um, um por todos”.

Régine Pernoud, Lumière du Moyen Âge, Éd. Bernard Grasset, Paris, 1944


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